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A GLOBALIZAÇÃO E A TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO
Silvia Ferreira



09/01/2004 17:18
A FORMAÇÃO DE UMA NOVA ORDEM INTERNACIONALIZADA

O que é globalização? Conceituar essencialmente esse termo é humanamente impossível, já que sua origem vem de grupos com objetivos diferentes (daí seu contexto paradoxal), que talvez não analisaram holisticamente as conseqüências. Também é difícil identificar se essas conseqüências são positivas ou negativas, mas de uma coisa tem-se certeza: os setores mais poderosos da sociedade têm usufruído seus benefícios muito mais que a maioria da população economicamente inferior.

Diante da cruel concentração de renda da atualidade, onde 10% dos países representam 80% da economia mundial, acentua-se cada vez mais a miséria, pobreza, luta pela posse da terra, desemprego estrutural, fome, mortalidade infantil, tensões e conflitos separatistas e guerras oportunistas.



Assim, o imperialismo norte-americano (ou do G-7) acaba sendo maquiado pelo termo “Globalização da Economia”, que promete a difusão mundial de tecnologias, recursos humanos, capitais e produtos. Entretanto, sem uma paralela “Globalização da Caridade”, essas promessas efetivas, mas ineficientes na construção do todo, acabam colocando no pobre, vítima de um ensino propositalmente mal estruturado, a culpa pelo atraso de uma nação.

Na verdade, os malefícios da globalização acabam sendo mascarados por benefícios periódicos, que se reduzem à medida que aumenta a dívida externa e a dependência ao FMI. Ela conduziu a uma concentração significativa do poder econômico, decorrente do poder de decisão. Este poder de decisão, concentra-se nas mãos de um pequeno grupo de grandes empresas transnacionais e instituições econômicas mundiais.

Cabe ressaltar que muitas vezes (talvez na maioria das vezes), as diretrizes dessas organizações articulam-se com os interesses das corporações transnacionais ou dos países dominantes no âmbito do capitalismo. Este "cenário" da globalização revela uma nova "forma" de capitalismo, alterando a autonomia relativa do Estado-Nação.

Essas instituições habitualmente detêm poderes econômicos e políticos decisivos, capazes de se sobrepor e impor aos mais diferentes Estados. Por meio de sua influência sobre governos ou por dentro dos aparelhos estatais, burocracias e tecnocracias, estabelecem objetivos e diretrizes que se sobrepõe e impõe às sociedades civis, no que se refere às políticas econômico-financeiras e sociais.

O fenômeno da globalização pode ser entendido como um processo crescente de integração das economias nacionais. Iniciou-se há muito tempo sob o nome de internacionalização, que ainda preservava a soberania, a identidade, a cultura de cada país. A prioridade do estado era o bem-estar. Nas últimas décadas, a prioridade modificou-se, no sentido de adaptar as economias nacionais às exigências da economia mundial.

No contexto da globalização financeira, os sucessos das bolsas são julgados mais importantes do que o investimento na "riqueza das nações", quer dizer, na educação, na saúde ou na segurança. Trata-se de um mercado do qual podem fazer parte somente as empresas de alta intensidade tecnológica, em que a tecnologia da informação é a chave para o alcance de objetivos globais.

Ao espaço geográfico foram incorporadas modernas tecnologias de informática, comunicação e transporte, que reduziram as distâncias, facilitaram a transmissão de informações e o controle sobre os territórios. As multinacionais aproveitaram-se disso para transformar o mundo em seu espaço de ação, para explorar matérias primas e mão de obra.

Contudo, dizer que todas as partes do globo estão em contato e que recebemos informações a respeito dos pontos mais longínquos não significa que tenhamos controle sobre essas informações ou que todos os espaços tenham o mesmo poder de influência. Existem poucas grandes agências, localizadas em metrópoles de influência mundial, que produzem e distribuem informações. Se assistirmos diversos telejornais, veremos que grande parte das imagens internacionais é produzida pela CNN. As mais importantes imagens de satélite da Amazônia, por exemplo, não são de controle brasileiro: o país compra essas imagens dos EUA, que podem manipulá-las e omitir informações de acordo com seus interesses.

No final do século XX, a mais ampla revolução dos transportes não aconteceu nos sistemas convencionais, mas numa nova modalidade especial, o transporte da informação, ou telemática (telecomunicação + informática). Hoje, o que se observa é a transmissão de milhares de informações virtuais através de diversos sistemas de telecomunicações e, nesse contexto, a Internet teve e continuará tendo um papel fundamental. Pode-se afirmar que esse tipo de transporte, atualmente, é responsável pela movimentação de centenas de bilhões de dólares. Exemplo disso é o funcionamento do mercado financeiro global, que movimenta diariamente cifras astronômicas nas transações de capital on-line e virtuais, tais como transferência, resgates e aplicações de dinheiro.

Como podemos perceber, existe uma relação direta entre o processo de globalização e a concentração do poder econômico e, paralelamente, do poder tecnológico. Isso tem contribuído para a formação dos grandes blocos econômicos.

É paradoxal falar de blocos econômicos e relacioná-los ao processo de globalização. Mas poderíamos dizer que a formação de blocos seria uma etapa do fenômeno. A junção de países com características semelhantes poderia ser uma solução para diminuir alguns efeitos da desigualdade mundial. Contudo, percebe-se que as coisas não são bem assim: cada vez mais os blocos vêm-se caracterizando por uma heterogeneidade em termos de agrupamentos de países, sobretudo ao que se refere aos aspectos econômicos. Podemos tomar como exemplo o bloco Nafta, onde o México “está nas mãos” dos gigantes Canadá e EUA e a proposta da Alca, onde todos os países da América Latina estariam indiretamente subordinados à política norte-americana.

Outro dado importante é o papel desempenhado pela atividade comercial na formação desses blocos econômicos, dando origem aos megamercados. Mas ora, se a globalização está baseada no livre mercado, com se explica a formação desses megamercados e dos próprios blocos, além de estados com legislações protecionistas? Como já dissemos no início, o fenômeno é bem pouco consensual e está baseada no interesse de poucos poderosos.

Com a globalização, o controle das informações e muitas decisões estão ficando longe dos cidadãos, e isso pode ameaçar a democracia. As grandes empresas podem decidir em suas sedes sobre assuntos que dizem respeito aos trabalhadores de diferentes regiões ou países. Com a evolução desse sistema, a melhoria do bem estar social acaba dependendo dos movimentos sociais, ou mais especificamente da "democratização" da sociedade.

Como exemplo o movimento sindical, que luta por melhores salários e melhores condições de trabalho, opõe-se a muitas decisões das empresas, criando obstáculos a seu funcionamento. Por isso, num mundo com modernas tecnologias que dispensam trabalho, as empresas ainda podem lançar mão da transferência de fábricas para outros locais, sempre que o movimento sindical se torna mais forte.

Agora, vamos analisar o aspecto humano de tudO isso. Como deve se sentir o operário que trabalha cartesianamente e repetitivamente, sem direitos ou com direitos que não refletem seu esforço? Este sempre acaba tendo que se contentar com a situação, esquecer qualquer possibilidade de crescimento pessoal e profissional, não reclamar jamais e viver supervisionado durante todo tempo, temendo que algum deslize prejudique sua estabilidade. Fura as greves do sindicato quando a maior vontade é participar e suplicar por melhores condições de vida. Tudo pelo sustento! Afinal, se perder o emprego nos dias atuais, pode ser substituído por uma máquina! Se ao menos não souber manusear uma, pode se condenar à miséria e levar a família no mesmo caminho. Entrará, então, para um grupo que podemos chamar de subclasse, que acontece quando os indivíduos não conseguem se vincular às estruturas de informação e comunicação, como produtores, consumidores, e nem como usuárioS.





Este texto é o resultado de uma série de pesquisas sobre a globalização que, depois de reunidas e analisadas, foram adaptadas pela autora.

Silvia Ferreira | comentários(10)

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